António Quadros, o meu testemunho


[continuação]

Fruto de negações sucessivas e desencontros com a minha época, faltava-me também então um espaço a que pudesse chamar Pátria.
É que eu provinha de Angola, em viagem, e chegara a este rectângulo vindo de um Império a desabar. Em 1962. Portugal, no limite a que se confinou, devolvido ao princípio da gesta argonauta, já era uma saudade do futuro, o mito profético das terras do Malpassar. A emergência da Nação Lusíada compreendi-a com ele, como mistério, imanência, destino, comunidade de vivos e mortos, diáspora, para além dos regimes, governos, intendências. Devo-lhe o patriotismo, esse inconsciente colectivo feito identidade transcendental do ser.
Li-o então, também no momento em que, jurista em formação, Leibnitz e a sua lógica deôntica, ensaiando o cálculo aplicável a tudo quanto fosse a norma e a Lei, me atraía, com a força de um magneto intelectual, e com ele o império da racionalidade, único critério que eu respeitava – que limitado eu era, sem saber! – de razão e da verdade; e de bondade e de beleza, a redução do ser ao denominador comum do ímpar magnífico.
E, permitam, o abuso da pessoalização. Naquele tempo, e durante tanto tempo assim foi, lia Simões da Fonseca e juraria que as sinapses neuronais eram homologias epistémicas da aritmética digital, que a lógica booleana tinha tornado operacional e Allan Turing instrumento de computação universal. E von Neumann e a sua teoria matemática dos jogos. E Nobert Wiener e a Cibernética, a mãe de toda a interdisciplinaridade. E trocaria a inteligência humana pela inteligência artificial dos servo-mecanismos, da robótica, sei lá o quê de inhumano, qualquer Golem e Companhia do “Espírito na Máquina” de Arthur Koestler. E julgava-me contemporâneo quando, para o ser, teria, como Leonardo Coimbra, de dar tudo por írrito e nulo e recomeçar.
 Surpreendi-o então, imagine-se, a António Quadros, firme e cavalheiro, a polemizar com António Sérgio, não porque contra o espírito seareiro no que isso implicava de programa cívico pela democratização da República, não enquanto filho da “política do espírito” de António Ferro, seu pai, sim como inteligência contemporânea em acção contra o reducionismo, geometrismo cartesiano afinal revisitado, negação do curvilíneo pelo rectilíneo, do complexo pelo simplificado, do enigmático pelo evidente, do diverso pelo uniforme.
Corajoso, não se deixou intimidar ante os que, sob falsa tolerância, anatemizavam todos os que não vinham da laicidade jacobina paramentados, ou pelo radicalismo político protegidos, jogados, nada democraticamente, afinal, para o lixo como “cadaveroso reino da estupidez”.
A coerência é uma linhagem. No seu caso um dever para consigo, antes de ser um respeito para com os seus. Uma militância.
Crúzio foi o homenageado então contra esse mundo que, julgando-se moderno era, afinal, obsoleto por não ser antigo, faltando-lhe da Tradição os arcanos, e que – fantásticas palavras suas as suas, como golpes certeiros – «por isso polarizou e orientou os desejos obscuros de uma burguesia desenraizada, céptica e materialista, à procura de justificações ou alibis para o seu pragmatismo de curto fôlego».
Só que eu tinha chegado então, tanto tempo perdido, ao 1982 da minha vida. E sentia, febril e marítimo, o nascer de um volante dentro de mim.
Foi precisamente naquele livrinho seu, dedicado à “Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista” que tudo começou. Ainda em dois volumes, da Guimarães. A partir dali, surgiu-me a revelação: Pascoaes e a bruma densa do Marão, pensamento granítico e névoa poética, Fernando Pessoa, pela primeira vez trazido do óbvio paradoxo de um Álvaro de Campos, para o esotérico de que ele é, em permanente desassossego, enigma e chave, ambos os seus dois poetas, e assim o achou João Bigotte Chorão.
Pela sua mão chegou-me, arrumada já a dispersa estante, toda a filosofia portuguesa, o seu antes primordial com Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho, e, logo todos, de Agostinho da Silva, errante, a Dalila Lello Pereira da Costa, em íntima clausura, inclassificáveis na sua indeterminação, Lima de Freitas e Margarida Cepeda, na simbólica da expressão artística, Francisco da Cunha Leão e, através dele o psicologismo do homem lusitano enquanto português e por isso não ibérico, todos quantos, afinal, que recolheu para “Memória das Origens”, dez anos depois. E não mais parou de jorrar essa fonte extraordinária de saber.
É verdade que o encontrara porque me perdera de mim naquilo em que a vida me traçara a rota desaustinada a que se chama Destino. Percebi-o depois, em retrospectiva. Contemporâneo na docência universitário de António Braz Teixeira não dei conta que um fio filosófico nos unia, imperceptível, impossível de se revelar.
Com o País a arder, António Quadros então escrevia. Em 1976 escrevia porque pensava, enquanto tantos desertavam ou se abstinham de intervir, e outros se iludiam ante a miragem salvífica de uma Revolução, que prometia liberdade e socialismo.
As elites salvadoras despareceriam, sem descendentes ou sucessores, o povo viveu a sua hora de festim de ilusões macabras.
Não o pressenti então, nesse seu livro vivido no campo da honra, o “Portugal Entre Ontem e Amanhã”, tão alheado que estava eu do que ele simbolizava, e como agora o leio, nesse escrito cauto, presságio da inatingida «eticidade de uma política nacional autêntica», e eis-nos hoje ante os tempos da anomia integral, a dar-lhe razão no seu contido entusiasmo face ao que, em tresloucada aceleração, ruía do edifício moral da Nação que é o que precede os Estados e seus Governos.
“Franco-atirador” já fora ele, aliás, em 1970, compilando crónicas que editara no “Diário Popular”, juntando nesse livro da sua “Espiral” o tudo e o nada que fazem do pensamento intervenção, da opinião arma. Nesses tempos, em que a liberalização política do País estava por vir, antecipou-se ele em liberdade, a do espírito livre. Conteve a forma, não o tema.
Mas foi a filosofia da existência, que marcaria o primeiro e porventura o mais vincado elo familiar com a sua pessoa. Atento, meticuloso, soube valorizar no romance “Mudança”, de Vergílio Ferreira, o corte com o neo-realismo e com os limites que a literatura-planfleto colocava à pujança criativa da forma, como a inteligência de “António Vale”, esse pseudónimo literário de Álvaro Cunhal, já o havia pressentido para as páginas da “Vértice”. Foi em 1959, sob a chancela da “Sociedade de Expansão Cultural”, que nos ofereceu essa percepção da fenomenologia cultural da ficção. Ali estavam todos, Régio, Agustina, tantos…
Dera-se, íntimo, a esse drama humano que é a sua existencialidade, através da qual, como tão bem se exprimiu no livro “O Movimento do Homem”, a criatura se vê e a todos os outros «através de um véu emocional, directo e perturbante, que intranquiliza todo o saber, que desequilibra todo o silogismo, que problematiza todo o valor (…).
Faltava a desocultação da Atlântida, essa forma extraordinária de percepção da longa persistência criacionista que é a Nação Lusíada, relutante à decadência, resistente à adversidade, em fidelidade e infidelidade a uma razão superior, nauta de um projecto áureo, sebástica talvez, ainda por cumprir.
Difícil, nesta agonia do momento, em que o “patriotismo de palha”, de novo fugaz e ingénuo, obnubila a verdadeira servidão a que nos acorrentámos, às galés da usura e às Índias europeias da ilusão atroz, enxergar, entre a regressão e a menoridade, a História do porvir, prolegómeno do futuro necessário.
Mas o que virá já está. É, pois, tempo de esperança.
Com António Quadros aprendi que, para edificar há que encontrar fundações, como na árvore o crescimento é a razão das suas profundas raízes.
Em escavação interior, buscando os fundamentos do eu, como precária pessoa, e do nós, como Nação sobrevivente a mais de oitocentos anos, segui-o, até me esgotar de exaustão, perseguindo a “resistência ao trágico”, nas Conferências do Casino ante o Ultimato, na perpétua bandeira da “Renascença Portuguesa” a desfraldar-se a Norte, e em tudo quanto, da História à Filosofia, onde encontrou, em arqueologia cultural, marcos miliários messiânicos dessa “ideia de Portugal”. Na busca, em saudade, de uma compreensível religiosidade incorpórea, a do divino Espírito Santo que ilumine.
Não terei o impudor de dizer quanto a António Quadros que o sei. Apenas que o tenho comigo. Eis o que vim dizer. Para o livro evocativo dos dezoito anos volvidos sobre a sua morte escrevi: «se há momentos de uma filosofia que marca um destino, o que ele escreveu sobre os males do positivismo marcou-me a rota mental». Não disse então mais, deu-me acanhamento.
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Termino e alonguei-me. A bondade de Pinharanda Gomes, ser de incorruptível carácter, acreditou que «a biografia pública de António Quadros coincide com a sua biografia íntima: uma vida de reflexão, uma vida a escrever, a comunicar». Talvez não. E não apenas porque há o Amor, essa força telúrica, vinda de um qualquer ponto do que existe, a Rosa Mística, razão e mistério. E sonho. Escreveu “Anjo Branco, Anjo Negro”, a homenagem à Mulher Eterna, a «transcendência que invoca uma reintegração».
António Quadros morreu «com discreto pudor». Sabia, pela verdade que se lhe revelara, que apenas se ausentaria o corpo em que em si viajava a alma. É seu o verso escrito em 1949, o ano em que nasceu o meu corpo: «Um grande azul, sem fim e sem distância. Um doce vento, simples, sem motivo. Uma terra fecunda de mistério. O Universo flutuante, sem limites».