Clarice Lispector, a mulher de coração selvagem







[continuação]




Para se situar a palavra «difícil» em relação a Clarice Lispector importa, porém, que duas afirmações sejam feitas, entre si contraditórias.

Primeira, que a sua escrita é, de facto, maioritariamente complexa, não só porque intensa no que respeita aos sentimentos que convoca no leitor, pelas rememorações que nele suscita, como pela opacidade com que elementos decisivos na narrativa surgem, por vezes como uma ligeira brisa, breve rumor, que leitura apressada ou sonolenta deixa passar, mas que se revelam cruciais para o entendimento e compreensão do que se lê; além disso, porque o modo como diz é outro mundo ao qual a nossa gramática mental e sensitiva não está habituada, como se de língua estrangeira tudo proviesse, declinando-se o verbo em desinências desconcertantes porque inesperadas.

Segunda, porque vista a globalidade da sua obra, a dificuldade a que me refiro é aparente, pois Clarice Lispector transmutou-se, por necessidade talvez, mas sem esforço notório, em escritora de textos de fácil legibilidade e até de trivialidades comuns. Para isso concorreu a circunstância de ter sido, na génese da sua escrita, jornalista, quase toda a vida cronista, e inclusivamente, sob pseudónimo, ghost writer em nome de uma conhecida actriz e modelo, Ilka Soares, que à notoriedade não sabia juntar a capacidade de escrever mas precisava de ter fama ao ser lida, e glória, e autora também, sob outro nome, de textos práticos «só para mulheres», desde a beleza, vida doméstica, maternidade, o amor e a moda, culinária, em suma, mundo feminino que dá vida, embeleza, mima e anima a outra metade do Céu.

Assinando como Tereza Quadros no jornal Comício, Helen Palmer no Correio da Manhã (brasileiro, entendamo-nos…), e, como disse, Ilka Soares no Diário da Noite, deixou pequenas prosas que, se são o reino da minudência e do banal, estão também recheadas de momentos de bom humor, inteligência e ironia, como se a autora se risse do que escrevia no acto de escrever.

Aparecida Maria Munes, doutorada em Literatura, organizou esses «conselhos, receitas e segredos», repositório de inteligência nas entrelinhas de uma escrita que se supõe de escasso esforço mental, porque ao serviço da indústria e do comércio do que imagina a mulher compre se a inteligência se ausentar momentaneamente no acto de comprar, dando-os à estampa pela Rocco, em 2006.

E toma como citação do posfácio desses 290 textos publicados na «imprensa de amenidades», o pensamento de Lin Yutang: «os trajes femininos são apenas meio-termo entre o confessado desejo das mulheres de vestir-se e o inconfessado desejo de despir-se».

Exemplifico pelo talvez mais concludente exemplo: «Você já reparou o esforço enorme que a excentricidade exige de uma mulher?», pergunta Clarice num desses apontamentos em que dá a resposta: «Quase um esforço físico algo antinatural». E remata, por que nela a sensibilidade é uma segunda pele: «A excentricidade é um esforço que termina em tristeza».

E mais exemplifico, com o porventura mais exuberante exemplo, o mais elucidativo, porém: «boa maneira de afugentar pulgas dentro de casa, é espalhar nos cantos e sob os móveis algumas pétalas de rosa. O perfume põe as pulgas para correr».

E demonstro o porquê quase diria legitimador desse seu envolvimento com a matéria e forma, vaidade que não é vacuidade: «você já devia saber que as mulheres querem se sentir bonitas para se sentirem amadas. E querer sentir-se não é frivolidade».

É precisamente este repúdio da frivolidade, em prol de uma elegância senhorial e patrícia, que a acompanhou pela vida fora. E querer sentir-se.

Por isso, Clarice Lispector cumpriu o seu papel de esposa de diplomata quando seu marido desempenhou funções no posto em Itália, em plena guerra, com categoria pessoal e cuidado extremoso nos detalhes da finesse exigíveis mesmo naqueles tempos difíceis. E por isso também, mesmo na adversidade social, sentimental, física até, e a vida foi-lhe madrasta, soube manter esse ténue fio que marca a diferença entre quem é e quem aprende a ser.

De origens humildes, filha de emigrados pobres, ucranianos, brasileira por naturalização, elevada à categoria das celebridades tanto quanto esquecida, hoje lembrada apenas pela banalização das citações de frases suas – de preferência as nostálgicas e de entre estas as mornas e de todas as de paradoxo – Haia Lispector, filha de Pinkos, é figura de excepção da Cultura mundial.

+

Voltando ao livro que me propus: que encontrei nele que julguei ter valido a pena partilhar com quem teve a gentileza de me ouvir na Casa Fernanda Pessoa?

Livro de atmosfera estranha, este, com quase ausência de história, livro de insólita sintaxe, de invulgar pontuação, de inesperada adjectivação fora do senso comum, hermética no seu simbolismo, com erupções satânicas [27], triangulado entre «as três graças diabólicas» [167], obra de escrita entre sons e cores [20, 45, 70, 71, 79, 83, 85], poucos humanos e de uma arca de Noé povoada de animais, como as omnipresentes galinhas [11, 25, 29, 41], obsessão nos seus escritos – veja-se o conto Uma Galinha editado no livro Laços de Família – o boi [35], o cavalo [70, 81], a cadela [90], o gato [112] e a enigmática barata [35] que é – horror para a ortodoxia – no seu universo interior o ponto nodal da sua íntima pertença a Deus, tudo bíblico na viagem diluviana de salvação que foi, afinal, a via crucis da sua atormentada vida, ânsia de despojamento e «ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos (…)» [202].

Só que, sendo tudo isso, o livro é por essência obra que traz no seu bojo duas tragédias íntimas suas, evidentes e obsessivas: casamento e transcendência.

É no óbvio tema do casamento que se torna narrativa quase biográfica e premonitória. Enquanto prosseguia a sua escrita, Clarice vivia os preliminares de uma união que não vingaria por estar condenada a não vingar. E nota-se nesta escrita tudo quanto seria o drama infeliz dessa ligação e mesmo a impossibilidade do próprio acto de se ligar.

E di-lo: «Mas – murmurou ele depois de um tempo e sua voz era hesitante, tímida e rouca – mas você não acha que tudo está quase terminado entre nós? – E quase desde o princípio… - aventurou» [178], coloca Clarice na boca de Octávio, personagem masculino do livro que tem Joana, sua noiva e logo mulher, e Lídia, sua amante, como contraponto de história em que o tempo parece ter estagnado, o espaço confinado.

Tudo isso está ali, através de uma incomum forma de dizer, mesmo quando referindo o que se espera encontrar já sem surpresa nas terras áridas da incompreensão e gélidas da impossibilidade.

É a ideia fantasmagórica do aprisionamento, quando Joana se pensa na sua ligação a Octávio e se coloca a vulgar hesitação «(…) como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes?», mas não sem antes a escritora ter projectado, através dela, a magistral observação «Octávio transformava-a em alguma coisa que não era ela mas ele mesmo e que Joana recebia por piedade de ambos, porque os dois eram incapazes de se libertar pelo amor (…)» [31].

Não é escrever, é descrever-se.

Trata-se de um tema que, na densidade de pensamento de Clarice, se propaga pelos territórios da relação da inexpugnabilidade do eu, quando no diálogo de Joana com Lídia coloca na boca daquela a afirmação: «(…) o mais engraçado é que ainda não tenho a certeza de que não casei… Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão- - Meu Deus! – não estar consigo mesma nunca, nunca (…)» [148]

A esta noção junta-se uma sua decorrência, a de que a mulher, quando casada, é mulher «com destino traçado» [148] e no caso de Joana «se bem que Octávio não fosse particularmente estimulante. Com ele a possibilidade mais próxima era a de ligar-se ao que já acontecera».

Tal ideia do casamento como fim de viagem e não como o seu início ganha expressão estilística quando, depois de uma das mais fulgurantes páginas da sua narrativa, em que «Joana foi tão corpo que foi puro espírito» [96], e a escritora no-la situa como «um animal que matara sua sede inundando seu corpo de água» [97], mulher «chorou livremente, como se esta fosse a solução» [ibidem], mas que «procurou-o então. E a nova glória e o novo sofrimento foram mais intensos e de qualidade mais insuportável» [ibidem], Clarice tudo isto remata, sublime texto, com uma só palavra afinal, aberto o ponto final parágrafo que assinala o arranque da alma e o desfecho fatal e cortante do facto que em si se esgota: «casou-se». Casou-se, ponto final, sem mais, sublime sim.

Quebra com um passado, finitude de um mundo por iniciar, aquele matrimónio oferece-se, mais além do que isso, como traição a esse mesmo tempo vivido, porque a Joana «de algum modo parecia-lhe estar traindo toda a sua vida passada com o casamento» [111]

Território de desencontros, o casamento é também, no amplexo agora do encontro dos corpos, a oportunidade para que «abraçados, com desejos diferentes» [124] ali estivesse, na noite primeira, «seu homem, aquele estranho» [132], «aquela criatura» [ibidem] e, de súbito, ela «olhou-o».

E surge então a insídia do medo de que “aquilo” tudo, o carnal e o carnívoro, como ao aperto de um botão – bastaria tocá-lo – começasse a funcionar ruidosa, mecanicamente, enchendo o quarto de movimentos e de sons, vivendo» [133]. E foi então que «teve medo do próprio medo, que a deixava isolada» [ibidem] e ali estava «o desconhecido que havia naquele animal que era seu, naquele homem que ela só soubera amar! Medo do corpo, medo no sangue!» [ibidem].

Angústia ante o que foi, pavor pelo que virá e desejo e ânsia pelo que poderá ser, é aí e então que a narrativa assume um dos mais belos e extensos momentos, ela e «o deslumbramento do seu próprio corpo a descoberto» [136], e com isso pressente-se a luxúria de si, havendo «ainda o silêncio, o mesmo silêncio» [134] antecâmara de todo o clímax, e surgir, nela sim, a posse e o acto, que «aquele ser vivo era seu. Aquele desconhecido, aquele outro mundo era seu» [135] e «depois, num parto doloroso, sob respiração difícil, sentiu o óleo macio da renúncia derramar-se dentro de si, enfim, enfim. Ele era seu» [ibidem]. Maternidade angustiosa antecipada.

Não há na literatura que se quer pelas áreas do erotismo quem consiga colocar-se, titilante sob o pudor, neste tule de penumbras sugestivas, neste cetim de sugestões.

«Ela era como uma mulher» [137], assim encerra esse capítulo sobre o encontro, inicialmente tímido e quase repulsivo e súbito violentado pelo acto que irrompe pela fina derme dos sentimentos e assim pela intimidade esventrada do ter e faz surgir a fêmea e a mulher como tal, indistinta no ser e na condição.

Creio, porém, que a questão do casamento em Clarice é não só a questão do “outro”, mas, com maior vastidão, o problema do que está para além do “eu” e do “tu”, mesmo quando se atinge ou se prefigura a impossibilidade do “nós”, afinal o problema grave da indivisibilidade do Amor ainda quando o sexo se reparte.

Nisso, a obra de Clarice é a antítese do enunciado “amar um só, é um crime contra toda a Humanidade”, lugar-comum menos da sublime entrega quanto da venal promiscuidade, mas «aquilo», do marinheiro. Porque «se amares um marinheiro terás amado o mundo inteiro» [167], mesmo quando no fim já da lucidez de Joana, em rememoração errante, lembra que «ela tivera tanta coisa, ah isso tivera. Um marido, seios, um amante, uma casa, livros, cabelo cortado, uma tia, um professor» [172] e tudo, e Lídia, que o queria a Octávio «com o corpo» [149] e então era amor, e, nessa inextricável permanência de todos, indissociáveis, diria, «eles três formavam um casal e a quem contar isso?» [173]

Narrativa de mulher, o livro é também a sombra permanente de tantas outras mulheres, porque «a mulher era o mistério em si mesmo» [141], porque «sua essência mesma era a de tornar-se» [ibidem], como «a mulher da voz» [140], aquela personagem que «multiplicava-se em inúmeras mulheres» [141], «em mulheres apenas ligeiramente mães e esposas, tímidas fêmeas do homem, como a tia, como a Armanda» [ibidem], como Macabea e seu Olimpico no seu outro livro A Hora de Estrela.

Há nesta escrita a presença luxuriante do corpo, um entre «os corpos pequenos, acabados, sem intenções» [90] ou «grandes (…), fixos, mudos» [ibidem], o corpo de Joana, «até o modo como andava. Sem ternura e gosto pelo próprio corpo, mas jogando-o como uma afronta aos olhos de todos, friamente» [ibidem], «aquelas linhas de Joana, frágeis, um esboço, eram inconfortáveis» [ibidem], o corpo indeterminado, porque «quando emerge da banheira é uma desconhecida que não sabe o que sentir. Nada a rodeia e ela nada conhece» [65].

O corpo, o ser corpóreo e sua funcionalidade, porque, fantasia Joana sub-rogando-se a Octávio, ante Lídia, grávida dele, como grávida estava a cadela [90] e diz, como se de si dissesse: «eu sei o que quero; uma mulher feia e limpa, com seios grandes, que me diga: que história é essa de inventar coisas? Nada de dramas, venha cá imediatamente! – E me dê um banho morno, me vista uma camisola branca e linho, trance meus cabelos e me meta na cama bem zangada (…)» [147]

É impossível não ver em Perto do Coração Selvagem a sua história e a do seu casamento. Ele está não só nos conceitos e nas ideias, e nos sentimentos que pela escrita se exprimem, mas nos próprios factos que a ficção não disfarça, Octávio e «o vago plano do livro de civil» [118] querendo dizer de Direito Civil.

Disse acima, mais do que a inviabilidade daquele casamento, o romance, diria a vida que por ali escorre, é a demonstração da impossibilidade de uma união, anseio de surgir «liberta do medo de não amar…Medo de não amar, pior do que o medo de não ser amado…» [93]

Na sua biografia, Benjamim Moser traz inconfidências sobre os amores incapazes da autora.

Dir-se-ia, nesta hora em que as biografias são escritas sobre intimidades de alcova, retratos por isso alcoviteiros para consumo de voyeurs e outros impossibilitados de sentirem na obra o maior sem o menor de quem foi apenas o seu autor, tudo isso concitaria extensão e pormenor. Recuso. Assim como recuso falar sobre os filhos, o belo e o trágico. Há pudor porque há respeito. Porque a Arte é mais do que a circunstância humana que lhe deu origem. Mesmo quando estiverem todos mortos.

Antes, pelo seu profundo significado humano e pelo grito que traduz, a carta que seu marido lhe escreve depois da separação, o filho Paulo com seis anos e onde inicia com «vou escrever-lhe pedindo perdão. Perdão com humildade mas sem humilhação. Falo-lhe com autoridade de quem sofre, de quem está profundamente só, muito infeliz, sentindo na alma e na carta a sua falta e a dos meninos», finalizando com o que é tema desta minha intervenção sobre Perto do Coração Selvagem: «Pelo amor de Deus, não interprete esta carta como acusação. Sei que minha imaturidade, minha distração, minha falta de apoio, foram um dos polos da equação. Eu não estava preparado, por circunstâncias bem conhecidas da minha infância, para dar-lhe mão forte, para ajudá-la a resolver o conflito que você tão eloquentemente reflectiu no seu primeiro livro.» [347]

Livro tremendo, amplexo de sentimentos que se entrechocam e contradizem espaço que «no entanto não era raiva, mas amor. Amor tão forte que só esgotava sua paixão na força do ódio» [61], e tudo ali, a jogar-se num «pequena família» [117, 127], buscando-os, incessantemente perdida, esse «laços de família» que daria título a uma das suas mais pungentes obras

+

Livro sobre o amor unitivo humano, Perto do Coração Selvagem é, por igual, livro sobre a questão da transcendência, vulgo o problema de Deus, de um Deus substantivado que em tudo está, gerando Ser naquilo que há e no que é.

É aí que se joga toda a complexidade filosófica da alma de excepção que ela corporizou. Não é apenas escritora a iniciar-se na escrita, é a sublime oferenda da totalidade de si à deglutição do Cosmos, do ponto infinitesimal de onde provém para a recta infinita pela qual a vida circula, o todo sem origem diferenciada do seu termo.

Deixou-nos neste livro a chave desse enigma, porque judia e porque se entronca, com desafiante coragem, explicitando-se, pela boca de Octávio, extensamente [122] na linha de pensamento heterodoxo de Baruch Spinoza, esse incomum judeu português que pagou com a irradiação o pecado de ter encontrado um outro Deus que não o da sinagoga.

Em Perto do Coração Selvagem Clarice ousa desafiar a norma da conformidade teológica, e assina por baixo essa proclamação, entregando-se, alma, corpo e mundo, à Substância única da qual tudo são atributos: «tudo é um, tudo é um..» [46]

Tanto dito de forma esotérica, porque o nome da coisa é a coisa em si, como quem «estava compreendendo as palavras, tudo o que elas continham. Mas apesar de tudo a sensação de que elas possuíam, uma porta falsa, disfarçada, por onde se ia encontrar seu verdadeiro sentido» [55], «as palavras vindas antes da linguagem» [137], porque não há o que não se sabe como se diz «o que desejo ainda não tem nome» [69].



+

Perto do Coração Selvagem é, de facto, livro difícil, tão difícil quanto é viver, porque a vida, apesar de ser esgotada com a inevitabilidade da presença de todos os outros é sempre o inexpugnável viver em si, no reduto íntimo do eu, porque a vida, com tudo o que traz de criador, na sua fecundidade genesíaca tem sempre, em cada instante, a porta escusa do morrer, sedutoramente entreaberta, porque a alegria do corpo é a sua melancolia na hora da nudez solitária e inútil.

Viver, pois, em solidão, ela que viveria toda uma vida em tumulto constante de casa frequentada em desarrumo, casa com visitas e filhos e horas trocadas, quando no mais íntimo de si anunciava que «tudo quanto é forma de vida procuro afastar. Tento isolar-me para encontrar a vida em si mesma» [68], como se na realidade estivesse confinada à clausura, que se tornou mito e lenda na sua biografia tal na frase «em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos» [69].

Viver em variantes de tristeza, «uma tristeza de corpo que se juntava àquela outra tristeza» [35], «e sua tristeza era um cansaço grande, pesado, sem raiva» [39], porque «ninguém sabia que ela estava sendo infeliz a ponto de precisar de buscar a vida» [76], viver pela melancolia, que é o gotejar que se torna num torrencial choro e, porém, invisível, Joana «vagarosamente entristece de uma tristeza insuficiente e por isso duplamente triste» [77], e triunfar, enfim, pela tristeza chegando com ela, esse veneno doce, ao clímax extático, porque «agora ela era tristemente uma mulher feliz» [110], «a tristeza da felicidade, esse apaziguamento e suficiência que deixam o rosto plácido» [155]. E assim a paz.

E, no entanto, tudo inútil: «Ah! Felicidade inconsequente, inútil na pragmática do viver-se como beco sem saída, território além do qual, como o horizonte aparente nada mais existe: porque «depois que se é feliz o que acontece?» [29]; «ser feliz é para conseguir o quê?» [ibidem].

Viver, enfim, como se a morte fosse ali mesmo e «ela morreu assim que pôde» [28], «aos poucos foi envelhecendo dentro de si» [99], mas, num ciclo perpétuo de fatalidade, «continuo sempre me inaugurando» [100], diz Joana, «sua vida era formada de pequenas vidas completas, de círculos inteiros, fechados, que se isolavam uns dos outros. Só que no fim de cada um deles em vez de Joana morrer e principiar a vida noutro plano, inorgânico ou orgânico inferior, recomeçava-a mesmo no plano humano.» [ibidem].

Tanto poderia dizer, tanto aflorei, desconexo, naquela já longínqua noite na Casa Fernando Pessoa. Este texto dá ordem ao que foi então apenas sentimento.

Termino com o potente achado, portentoso, esperança feita verbo: «eternidade não era só tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de não poder contê-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade, e também era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstracto» [43], porque «era um instante e outro, entre o passado e o futuro, a vaguidão branca do intervalo» [157}, «carregar para sempre o pequeno ponto vazio» [ibidem].

É isso precisamente o que ficou como clarão telúrico deste livro: o pequeno ponto vazio de onde tudo surge para onde tudo converge, o palpitar de um coração ansioso de amar, «sangrento e glorioso vinho, o sangue de Deus» [62].

+

As referências efectuadas entre parêntesis rectos, salvo quando referenciadas como pertencendo a outras obras, pertencem ao livro Perto do Coração Selvagem, na edição portuguesa, publicada no ano 2000 pela editora portuguesa Relógio de Água, que foi onde o li pela primeira vez, extasiado.